segunda-feira, maio 11, 2009

La nuit

Lost in cheap delirium
Searching the neon lights
I move carefully
Sink in the city aquarium
Sing in the key of night
As they're watching me
Home- Zero7


Era noite, talvez tarde, mas não madrugada, apenas o momento do dia em que a luz não está e tudo é elegante e escuro, sem as cores fortes e alegres do dia que fazem doer os olhos, sem os barulhos de gargalhadas e prantos que inundam as manhãs das cidades, sem toda essa irritante explosão de vida, indecentemente viva...que atordoa, que desconcerta... era noite e assim estava bom....
Ainda dentro de casa a moça se arruma, vestido, sapatos, maquiagens... mil apetrechos para se transformar em algo ou alguém que ela pensa ser.A moça que a cidade não vê, nem bonita nem feia, nem gorda nem magra ( ela se acha gorda, claro), nem baixa nem alta ( ela se acha baixa, claro),quer ser vista essa noite, sai, pensando que talvez à noite, quando a luz é fraca, as sombras duras e o álcool deixa as mentes mais generosos, ela, apenas uma moça comum, daquelas que gostam de música, abominam livros de auto-ajuda, perdem a paciência com facilidade e acreditam que o "homem é o homem do próprio homem",possa por algumas horas ser vista, não para ser admirada ou desejada, mas apenas para se fazer acreditar que realmente existe e se tirar de vez a ideia fixa de que na verdade não passa de um holograma ou a amiga imaginaria de alguma criança.
Horas de testes, o quarto revirado, as roupas mil vezes experimentadas, o rosto irreconhecível na mascara de maquiagem...a moça reconhece a caricatura que queria pintar de si mesma...mas não se vê... está pronta, agora pode sair. Mas não o faz... fica ai, encarando a estranha que se diz sua imagem no espelho....passa a mão nos olhos, e encara sua mão agora suja da tinta preta que antes estava em seu rosto, seguindo graciosamente a linha dos cílios...mentira?
Era noite e chovia lá fora e o grito da tempestade abafou o que saiu de sua garganta quando quebrou o espelho e as luzes se aparam cobrindo a cidade e o quarto de breu, de um negror mais negro que a tinta que tinha nas mãos, agora misturado ao vermelho do sangue que não parava de brotar dos nós de seus dedos.
Sem luz não havia sombras, sem luz não havia como ver as feridas nas mãos (apenas sentia), sem luz não havia como ver o espelho destroçado,sem luz não havia como ver ou sequer imaginar seu rosto manchado da maquiagem borrada, sem luz apenas estava ela...sozinha, apenas ela... e assim estava bom.

Sorriu, se houvesse luz teria rido às gargalhadas...mas não quis perturbar ou quebrar a escuridão com barulhos...andou na direção em que sabia estava sua bolsa e pegou a caixa de fósforos e um maço de cigarros (agradeceu por ser fumante)e se sentou ao lado dos cacos de espelho caídos no chão.
Ascendeu o primeiro cigarro e junto com a fumaça que tragou com gosto pareceu engolir também uma alegria jamais sentida, daquelas que fazem as pessoas acreditar que não é possível ficar triste nunca mais...voltou a sorrir.
Ascendeu um fósforo e com a luz fraca da chama se viu em um dos cacos de espelho, viu também as feridas nas mãos...sentiu dor...até que a luz se apagou e a dor parou. O fogo, era a única luz da noite. O fogo dos fósforos que ela ia acendendo um a um...até que a chama consumia todo o palito até o ponto em que ela instintivamente o soltava porque lhe queimava os dedos... e riscava o seguinte...
Estava em silencio, o silencio de quem quer que tudo se consuma, como os palitos de fósforo que o fogo queimava...era noite silenciosa e sem luz, ela estava só e assim estava bom...

Para ouvir....

Um comentário:

Antonio Amador disse...

("Quando um espelho se quebra
Estilhaços se espalham pelo chão
Lampejos de uma vida nova
Refletem-se por toda parte..."
— Yumi Kimura)

Obrigado pela visita, Claudia. Foi também uma boa surpresa...